Atualmente, a rodovia apresenta graves problemas, como buracos, pontes quebradas, falta de asfaltamento e estrutura de escoamento de produções locais
A rodovia AM-174, que liga Novo Aripuanã a Apuí, no sul do Amazonas, vive um impasse institucional enquanto moradores tentam, por conta própria, impedir o abandono total da via. Na semana passada, um grupo se mobilizou para recuperar uma ponte de madeira, meses depois de o coletivo “SOS AM-174” divulgar a arrecadação de R$ 150 mil para obras na estrada.
O maior problema que impede uma manutenção constante da estrada é a falta de clareza sobre a responsabilidade governamental com a rodovia. No passado, a AM-174 foi considerada de competência estadual, mas o governo atual diz que a via é, na verdade, municipal. Já o governo federal, que no passado realizou obras de manutenção na estrada, tem recebido pedidos de políticos do Amazonas para federalizar a via.
De acordo a Secretaria de Infraestrutura do Amazonas (Seinfra) não há registros oficiais ou jurídicos que confirmem sua inclusão formal no sistema viário estadual.
“Cabendo às respectivas administrações locais a responsabilidade por sua manutenção, conservação e eventual pavimentação, conforme estabelecido pelas legislações orgânicas municipais vigentes”, disse a secretaria por meio de nota.
Atualmente, a rodovia continua apresentando graves problemas, como buracos, pontes quebradas, falta de asfaltamento e estrutura de escoamento de produções locais. Em vídeos nas redes sociais, é possível ver a população em atoleiros e com pontes tombadas.
Um documento do Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (DNIT),sobre o planejamento de gestão para 2020, indicava que a AM-174 foi considerada para receber manutenção, mesmo não sendo federal.
Em janeiro de 2025, o deputado Átila Lins defendeu que a rodovia deveria ser federalizada, por ser essencial para manter a trafegabilidade dos municípios, bem como, o escoamento de mercadorias. A reportagem entrou em contato com o deputado federal e sua assessoria para verificar o progresso do pedido, mas não obteve retorno.
Manutenção
Sem o estado reconhecer a responsabilidade e sem a federalização, as gestões locais é que tem sido pressionadas a atuar para resolver os problemas da estrada. A prefeitura de Apuí, por exemplo, chegou a realizar reparos no trecho que compete ao município. A prefeitura de Novo Aripuanã também tem divulgado serviços de manutenção.
“Estamos trabalhando com seriedade e responsabilidade para devolver à população uma estrada em condições adequadas, reconhecendo seu papel estratégico no desenvolvimento socioeconômico do nosso município”, diz trecho de uma publicação da prefeitura Novo Aripuanã.
Cenário
O presidente da Associação Amazonense dos Municípios (AMM), Anderson Souza, informou que consultou os prefeitos dos dois municípios e os secretários de infraestrutura, e foi informado de que a maior dificuldade está concentrada no trecho de Novo Aripuanã.
“A rodovia AM-174 possui uma extensão total de 290 km, sendo 43 km dentro do município de Apuí e 247 km no território de Novo Aripuanã. No trecho pertencente ao município de Apuí, a estrada encontra-se em perfeito estado de conservação. Já no trecho que compreende o município de Novo Aripuanã, a situação é preocupante”, disse.
Souza informou que a prefeitura de Apuí, sob a gestão do prefeito Marquinhos (MDB), com o apoio do Grupo “S.O.S AM-174”, conseguiu melhorar uma parte da via, mas a estrada continua com problemas em pontes e bueiros desse trecho, que apresentam condições precárias, oferecendo riscos aos usuários.
De acordo com o presidente, do km 170 até a sede de Novo Aripuanã, a rodovia encontra-se em “estado de abandono”. Um destaque crítico é a ponte de 120 metros sobre o rio Aracu, localizada no km 22 a partir de Novo Aripuanã, que representa um grave risco à segurança, segundo ele.
“A região atendida pela AM-174 abriga aproximadamente 400 famílias, distribuídas em cerca de cinco comunidades ao longo da estrada. A principal atividade econômica é a pecuária, com criação de gado, além do cultivo de café, que também tem forte presença na região”, ressaltou.
Governo investiu R$ 1 bilhão
Questionada sobre o trabalho de manutenção nas estradas do Amazonas, a Seinfra informou que atua nos modais rodoviários por meio de serviços relacionados à base do pavimento, preparação adequada do solo, revestimento em concreto asfáltico, sinalizações horizontais e verticais para garantir a segurança no trânsito, além de drenagens superficiais e profundas quando necessário.
A secretaria ressaltou que as obras seguem todas as normas brasileiras e também padronizações adotadas pelo Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (DNIT). A atuação da Seinfra se estende pelas rodovias estaduais, ramais, estradas rurais e viários urbanos municipais.
Quanto ao investimento do estado na manutenção de estradas, a Seinfra destacou que o governo do Amazonas já concluiu a modernização com reconstrução de pavimento em sete rodovias, totalizando 250,39 quilômetros, com investimento total no valor de R$ 1 bilhão. Outras quatro obras em rodovias seguem em andamento, totalizando 294,08 quilômetros, com investimentos que somam R$ 978,4 milhões.
Professor defende volta do DER
O engenheiro civil e pesquisador, Marcos Maurício Costa, criticou a ausência do Estado em garantir trafegabilidade nessa área. “O governo estadual mostra claramente o descaso para com o sul do Amazonas. Por isso, reitero que os vereadores de Apuí e de Novo Aripuanã – e os respectivos prefeitos – não devem ficar esperando ‘favor’ do governo do Amazonas; ao contrário, devem cobrá-lo com firmeza, mostrar que ninguém é bobo”, disse.
Em artigo divulgado no dia 12 de janeiro deste ano, Marcos Maurício defendeu a recriação do Departamento de Estradas de Rodagem do Amazonas (DER-AM), extinto em 1995, e que era responsável pelas obras de estradas do estado.
O engenheiro afirma que o Amazonas já demonstrou, no passado, plena capacidade técnica e operacional para planejar, executar e manter sua infraestrutura rodoviária. Segundo ele, o DER-AM, principalmente durante a construção da BR-319, dispunha de um corpo técnico qualificado, capaz de contratar, fiscalizar e conduzir grandes obras de engenharia com eficiência.
O doutor em Engenharia de Transporte Augusto Rocha defendeu a trafegabilidade da estrada e afirmou que a manutenção é competência do Estado. “Sobre a rodovia em si, ela deveria ser trafegável. Isso é, de fato, responsabilidade do estado do Amazonas, por se tratar de uma rodovia estadual”, informou.
Augusto Rocha afirmou, ainda, que o problema não é exclusivo da AM-174, mas que acontece a mesma coisa com o Anel Leste, em Manaus, e outras obras do interior, por “falta de prioridade para infraestrutura” do interior e capital.
“É um problema de grande dimensão, que merece atenção especial na próxima campanha para o governo. Para 2026, parece-me um tema fora da pauta, salvo o caso da AM-010, que talvez seja concluída. Salvo engano, há cerca de 50 projetos e obras de pontes em Manaus iniciados em 2022 que ainda não foram concluídos”, ressaltou.
A reportagem procurou o Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (DNIT) para verificar as competências do órgão e os planos de atuação na via. Assim que houver retorno, a nota será acrescentada à matéria.
(Foto: Divulgação)
Fonte: Emile de Souza/acritica.com